Crônica de uma eleição anunciada

Há algum tempo os brasileiros sinalizam o que estava por vir nestas eleições. Se antes eram eleitos aqueles candidatos que se supunha capazes de resolver as aflições dos brasileiros, essa expectativa foi esmorecendo a cada frustração. Com a revelação progressiva dos casos de corrupção, a associação do eleitor foi imediata: os eleitos não resolvem os problemas porque desviam o dinheiro público.

 

Há 20 anos escuto eleitores para pesquisas qualitativas, que monitoram o comportamento do eleitor, e posso afirmar que política e corrupção sempre foram percebidas como aparentadas. Não raramente, as pesquisas apontavam um eleitor propenso a tolerar o uso da oportunidade delegada ao político de se beneficiar do cargo.

 

O que mudou, no entanto, na consciência eticamente frágil desse brasileiro no que tange à associação da política com a corrupção?

 

Pesquisas apontam para uma conjunção de fatores. Um deles é o despertar da população do seu direito de “regular” os abusos dos políticos. Passou-se da submissão ao “rouba, mas faz” para uma convicção de que “rouba e não faz”. Outro fator está ligado à deterioração do status do cidadão, que se percebia beneficiário de um estado de euforia, em que os políticos se locupletavam do erário, mas podiam ter carne à mesa. Se antes havia um arranjo que proporcionava relativo equilíbrio entre roubar – conveniente ao político – e fazer - conveniente ao povo, esse “acordo” terá sido quebrado pela ganância desenfreada dos usurpadores do bem público. A descrença já não permite exceções: no início podem até ser honestos, mas ou se tornam corruptos ou são “expulsos” pelo sistema corruptor.

 

Essa percepção gerou um vazio no horizonte dos eleitores e tudo passou a soar como falso. Mesmo todas as elaborações semânticas de marketing começaram a ser desmistificadas pelas constatações de que não passavam de um discurso requentado. Muito difícil convencer esse eleitor.  O que se observou foi um eleitor pragmático: Prefeitos que fizeram um bom trabalho foram reeleitos, ao tempo em que os incompetentes não se reelegeram ou não elegeram sucessores.  Game over.

 

Nesse imenso vazio criou-se uma condição particular para o florescimento de uma proposta de negação do modelo: o “não-político”. Os votos nessas figuras simbolizam uma verdadeira catarse coletiva.    Fenômeno que acabou dando o tom em ambientes como São Paulo, Belo Horizonte e Porto Velho, que elegeram com facilidade nomes estranhos ao exercício da vida pública. Onde não havia uma proposta “não-política” evidente, o “castigo” foi trazer para a dianteira nomes para um primeiro mandato, como no Rio de Janeiro. Ou, ainda, promovendo uma negação assombrosa ao voto, como ocorreu em Cuiabá, em que abstenções, brancos e nulos somaram 40%. A abstenção, para além de uma atitude de protesto, merece ser vista como o voto da imobilidade advinda da sensação de se estar em um beco sem saída - é isso que os eleitores dizem quando interpelados.  As exceções, como a fácil reeleição em Salvador, apenas reforçam a tese. O jovem prefeito antecipou, inteligentemente, o movimento do eleitorado e desde o começo agiu menos como “político” e mais como “empreendedor”.

 

Ainda que, devido a sua vastidão, no Brasil deva- se falar em diversos estágios de transformação do eleitor em seus quase 5.600 municípios, o fato é que as eleições de 2016 ficarão marcadas pelas mais expressivas manifestações de uma vontade genuína de mudança. Vontade que não nasce num repente de consciência, mas que vinha sendo gestada. Ainda é cedo para se dizer que os eleitores fizeram as melhores escolhas. Talvez tenham praticado as únicas alternativas que condiziam com a vontade de expressar a negação das suas escolhas anteriores. Surpresa? Só para quem não monitorou o eleitor em profundidade nesse momento tão particular do Brasil.

 

Karin Koshima
Diretora Executiva da Recomenda Pesquisas & Consultoria.
Analista política e de mercado.

 

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