Muito se tem falado sobre os erros dos institutos de pesquisa na eleição dos EUA. Porém, alguns fatores que compõem esse complexo cenário precisam ser avaliados. 

 

O primeiro deles é a necessidade de diferenciar resultados de pesquisas das projeções derivadas de análises e interpretações políticas. O fato é que os dados primários das pesquisas já revelavam que Hillary sairia vitoriosa no voto popular nacional - e acertaram. 

 

No que se refere aos resultados por Estados, as pesquisas acertaram quase todos. Os críticos apontam que analistas falharam ao considerarem que alguns Estados votariam em massa na candidata Democrata, não conseguindo antecipar que esse eleitorado acabaria mudando sua tendência política. É menos uma questão de metodologia e mais de um olhar político e estratégico.

 

Esta eleição foi, ainda, atípica no que diz respeito à rejeição do eleitorado aos principais candidatos. Quando o voto não é de fato uma escolha e se dá por “exclusão”, a volatilidade deste voto é inevitável e pode influenciar o resultado até o último segundo.

 

Outro fator que pode ter contrariado as projeções foi o fato de Hilary não ter conseguido motivar suficientemente sua base para sair de casa e votar. Seja pela sua incapacidade de se mostrar como uma candidata na qual valia a pena investir, seja pela falsa impressão de vitória garantida causada pela ampla vantagem de Hillary nos votos antecipados e pelo approach de Trump, que certamente fez com que muitos não o levassem a sério.

 

Deve-se considerar também que candidatos tão polêmicos, como Trump, podem provocar constrangimento no eleitor no momento de declarar sua intenção de voto. É o voto envergonhado, que se revela apenas na solidão da urna - e que costuma revelar surpresas na apuração.   

 

Há outro aspecto crucial no entendimento deste cenário: a “bolha” na qual se encontra a parcela “esclarecida” da sociedade, incluindo a imprensa dos EUA, grande parte da imprensa global, a academia, analistas políticos e do mercado financeiro, muitas vezes vítimas de certa miopia. Estes foram os maiores responsáveis por olhar os dados das pesquisas, fazerem as análises e projeções, trabalhando o tempo todo com a hipótese (e o desejo) da vitória de Hillary – porque era nisso que o seu meio apostava.

 

O fato é que o resultado desta eleição põe em jogo muitas certezas. A confiança numa vitória de Hillary foi construída, principalmente, por aqueles a quem se convencionou nomear formadores de opinião. O que nos faz pensar: quem, afinal, está, hoje em dia, formando a opinião de quem?

Essa surpresa com o resultado norte americano é um chamado para todas as instituições se repensarem, olharem o entorno com menos certezas, entendendo que existe, sim, mundo fora da “bolha”.

 

Karin Koshima
Diretora Executiva da Recomenda Pesquisas & Consultoria.
Analista política e de mercado. 

 

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