O Brasil vive uma transição de fase, que perpassa, pelo luto da perda das ilusões. A verdade dói, mas liberta. Crescer também dói. A pele se estica para comportar um novo corpo.

 

Convido vocês a analisarem as agruras de 2016 como importantes para essa evolução. Um dia reconheceremos a importância deste ano.    

 

Está sendo indigesto, mas finalmente a secular corrupção se escracha e ouvimos em alto e bom som o que se falava aos cochichos. A engenhosa parceria entre “fornecedores do Estado” e quadrilhas travestidas de partidos políticos está comprovada, delatada e premiada. Como consequência,  surpreendentes acordos de leniência com outros países são fechados, permitindo antever mudanças no ambiente corporativo e nas suas relações com agentes públicos.

 

Os resultados das eleições revelam uma reação ao modelo tradicional de política, apontando uma mudança crítica do eleitor, que certamente impactará em maior “compostura” dos políticos.

A ideia de que o crime não compensa começa a fazer sentido. A grata novidade de empresários e políticos encarcerados abre caminho para a formação moral das novas gerações. Quem imaginaria isso antes de 2016?  

 

A crise econômica também traz aprendizados. Muitos descobriram que é possível viver em outro patamar de consumo, sem excessos. A nova regra da previdência, apesar das controvérsias, poderá definitivamente obrigar o brasileiro (o que pode, naturalmente) a adotar uma postura mais previdente.

 

Temos em curso um momento de mudança paradigmática, observando normas que estabeleciam os limites e determinavam o agir sendo colocadas em xeque.

 

Nossas pesquisas revelam que os brasileiros não gostaram do que viram no retrato do Brasil. E foram além: reconheceram partes suas projetadas nessa “feiura”. Na psicanálise, podemos comparar ao que se chama de retificação subjetiva. Acontece quando o sujeito, enfim, transcende a vitimização e reconhece que também contribui para o seu padecimento.

 

“Qual a minha parte nessa desordem? Somos todos também corruptos? Eu faria diferente em dada circunstância?” - estamos a pensar.   

 

Mudanças de posição subjetiva geralmente são antecedidas por inquietação e insatisfação, mas sinalizam uma feliz oportunidade de virada (falando nisso, que linda virada deu nossa seleção, heim!).  

 

É oportuno finalizar com um conto: a “lição da borboleta”. Um homem observa o esforço da borboleta para sair pela fresta do casulo e resolve ajudá-la, alargando a saída com uma tesoura. A borboleta sai, mas ela nunca voará. Ele não compreendeu que era a passagem pelo aperto que fortaleceria suas asas.

                                             

2016 foi um ano de aperto e não está sendo fácil enxergar luz no fim da fresta. Mas estamos atravessando o casulo e aposto que, com asas fortes, alçaremos um belo voo em 2017.

 

 

Karin Koshima
Diretora Executiva da Recomenda Pesquisas & Consultoria.
Analista política e de mercado.

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13/11/2016

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