Como profissional que busca captar “as verdades” da opinião pública, trago à discussão o termo “pós-verdade”, que vem sendo apontado como um símbolo da forma como as pessoas têm lidado com as informações na contemporaneidade. Noto que o conceito (“se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”) é uma repetição da teoria da percepção. Arrisco afirmar que pós-verdade é uma expressão de efeito para chamar a atenção de um público saturado de informações e inclinado para a alienação noticiosa, elevado a uma grande sacada da pós-modernidade.

 

O que mudou então? Respondo: O cenário, o contexto. A era da comunicação digital traz um novo desafio ao complexo mecanismo da percepção humana. Estamos no exato momento em que observamos “a humanidade” se debater na tentativa de materializar a verdade e se adaptar. Penso que as pós-verdades são efeitos colaterais dessa tentativa.

 

Evidente também que o externo, como a crise de confiança nas instituições e a polarização política, tornam difíceis a construção de consenso, favorecendo a profusão de informações tendenciosas. Mas o que protagoniza a produção de verdades é o fator humano ao processar as informações. Não é no ambiente externo que as pós-verdades são produzidas. 

 

Mas porque a percepção humana tem favorecido a ocorrência desse fenômeno? Como mostra a psicologia, o homem é inclinado a recusar fatos que contrariam sua visão de mundo. Hoje se escolhe a quem escutar, bloqueia-se pessoas ou posts do jornal que têm uma visão não alinhada à sua, criando-se uma bolha de realidade. Os recentes acontecimentos foram um alerta. A aposta é que a sociedade irá se auto regular ao novo modelo, ao se dar conta dos danos causados pela maneira que absorvem a informação e perceberão que não podem viver de posts e de tweets.

 

É preciso desconstruir a presunção de que já se sabe antecipadamente o que as pessoas pensam e entender que as experiências que processam em suas mentes são mais reais que dados apresentados. Muito mais do que lógico-formal ou semântico, o conhecimento é pragmático.

 

Vivemos tempos de mudanças rápidas e de exigências cada vez mais específicas, o que cobra um monitoramento profissional permanente das tendências do comportamento. Apostar que sabemos o que o consumidor deseja, é subestimar a dinâmica dos estímulos a que a opinião pública está sujeita.

Por fim, dois apelos: lembrar que estamos em pleno processo de adaptação e isso exige tolerância e que todos temos um limite humano, que nos permite enxergar só até onde suportamos. Respeitar as diversas opiniões é honrar a nossa humanidade nessa avalanche digital.

 

Karin Koshima
Diretora Executiva da Recomenda Pesquisas & Consultoria.
Analista política e de mercado.

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