Uma necessária reidentificação política

Ainda que “política” seja um termo cada vez mais corriqueiro, preocupa a crescente despolitização dos brasileiros. Pesquisas que acompanho apontam para a desvinculação ideológica do processo decisório do voto. Céticos, eleitores levam em conta critérios pragmáticos, sem compromisso com princípios.   

 

Afinal, manifesta boa parte deles, onde está a direita ou a esquerda, hoje? Como considerar de esquerda alguém que empunhava a bandeira ética como ponto de distinção e se envolve em corrupção?

 

Esquerda e direita, desde a Revolução Francesa, não apenas balizam o debate, mas nos orientam frente a valores essenciais. Educada em colégio jesuíta, aprendi que a direita tende a crer que as desigualdades são naturais, enquanto que a esquerda as considera fruto de uma construção social injusta. E que a esquerda maneja a prestação do serviço público protegendo-o dos particularismos, a exemplo do clientelismo ou compadrio. A partir de referências dessa natureza, encontrávamos elementos para alicerçar nossa identidade política.

 

Hoje, escuto eleitores fazendo do voto mera expressão da conveniência pessoal, não necessariamente por oportunismo, mas pela ausência de bandeiras. A formação de opinião navega na troca rasa de acusações, com a consagração de termos que enquadram “ideologicamente” os segmentos sociais, como “coxinha” ou “petralha”, atestando a superficialidade do pensamento vigente, onde qualquer dissenso, contraditoriamente, parece implicar na anuência com o seu oposto.  

 

Os depoimentos apontam, ainda, para a consolidação da convicção de que o voto deve levar em conta a pessoa e não o partido, sem compromisso em manifestar alguma visão de sociedade. Tampouco parece se acreditar em programas de governo como expressão de linhas de pensamento. O que talvez explique o porquê de as estratégias eleitorais que mais têm se mostrado eficientes, sejam as que valorizam “roupagens novas”, sem a menor preocupação em expor conteúdos. 

 

Os partidos que deveriam servir como referências ao engajamento não cumprem essa função, deixando lacunas perigosas. Não surpreende, portanto, que prosperem candidaturas que pregam a “despolitização da política”, como se fosse mérito propor governar desconectado de alguma doutrina.   

 

Estarmos frente a um processo de subjetivação política singular, (sub)nutridos pelo esvaziamento ideológico. Faz-se tão necessário quanto o estímulo ao reaquecimento da economia, um sério esforço na reinvenção (e relegitimação) dos partidos, com a retomada de bandeiras históricas, aportando assim “nutrientes” essenciais para a reidentificação Política. Adensar esse debate é uma questão de sobrevivência.

 

Não haverá desenvolvimento fora de nós sem desenvolvimento dentro de nós.

 

Karin Koshima
Diretora Executiva da Recomenda Pesquisas & Consultoria.
Analista política e de mercado.

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13/11/2016

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